Chegando Atrasada! Em três minutos, ela mergulha no banho, faz a maquilhagem, veste o casaco e as botas, e depois pega o elevador.

**Atrasada!**
Em três minutos, mergulhou no banho, passou uma camada de maquilhagem, vestiu o casaco e as botas, e enfim agarrou o elevador.
«Meu Deus, estou atrasada!» Inês Pereira acordou de um salto, transformando-se num furacão de eficiência. Em três minutos, fez o impossível: maquilhou-se à pressa, enfiou-se no casaco e nas botas, e disparou para o elevador, praguejando contra o despertador pela traição.
A rua lisboeta recebeu-a com uma chuva miudinha de outubro, mas Inês não tinha tempo para guarda-chuvas ou hesitações. Perder o autocarro significava enfrentar o senhor António, seu chefe, um homem cuja tolerância a atrasos era tão escassa como a paciência de um touro na arena. Um minuto de atraso equivalia, no seu mundo, a uma reprimenda épica e à ameaça de «redução de pessoal».
Enquanto corria, já se despedira mentalmente do bónus de Natal, do dia de folga pendente e até do café das dez com as colegas. As pessoas à sua volta, igualmente stressadas, pareciam uma procissão de zumbis com guarda-chuvas. Até o céu se tornara dramático, como se quisesse juntar-se ao caos.
A duzentos metros da paragem, Inês parou de repente. Junto a um banco desgastado, um gatinho encharcado tentava miar, mas só saía um som como o de um violino desafinado. «Continuo ou ajudo-o?» Sabia que o senhor António lhe lançaria um olhar fulminante, mas deixar aquele novelo de pelo a tremer? Nem pensar.
Ao aproximar-se, viu que o animal mancava. «Ai, meu Deus! Quem te fez isto, meu amor?» Sem hesitar, envolveu-o no seu cachecol (branco, agora estragado) e recomeçou a correr, desta vez com um passageiro extra. «Se me despedirem, ao menos fico com o gato», pensou.
O seu plano de entrar sorrateiramente no escritório falhou. Logo ao virar o corredor, deparou-se com o senhor António, que, de braços cruzados e sobrolho carregado, disparou: «Pereira! A que horas aparece? Ou agora trabalhamos quando nos apetece?» Inês, trémula, abriu ligeiramente o casaco. O gatinho espreitou e soltou um «miau» triste.
«Ele estava magoado, senhor António. Não o podia deixar ali», gaguejou, com lágrimas e ranho misturados. Já se via a limpar a secretária quando o chefe, inesperadamente, tirou um papel e escreveu um endereço. «Leve-o a esta clínica. Agora. E não volte hoje.»
Inês olhou para ele, certa de que era o fim. Até que o senhor António acrescentou: «Hoje e amanhã são os seus dias de folga. E isso do gatinho bem feito.»
Na clínica, o veterinário, um homem com ar de avô bondoso, revelou que o gatinho só tinha uma entorse. «Conheci o senhor António em miúdo», contou entre risos. «Resgatava cães dos esgotos e brigava com os miúdos que maltratavam gatos. Agora doa metade do ordenado a associações, mas com as pessoas bem, desde o que aconteceu à família, sabe como é.»
Naquela noite, com o gatinho (agora chamado «Bolinhas») a ronronar no seu colo, Inês recebeu uma chamada. «Como está o paciente?», perguntou o senhor António. Acabaram por jantar juntos, falando de animais até o empregado os expulsar.
E assim, entre resgates de bichos e cafés partilhados, Inês descobriu que até os chefes mais carrancudos escondem um coração mole. E Bolinhas, por sua vez, nunca mais passou frio.

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Chegando Atrasada! Em três minutos, ela mergulha no banho, faz a maquilhagem, veste o casaco e as botas, e depois pega o elevador.